Está Chovendo, vamos usar os computadores!
/0 Comentários/por luiscpmotta@gmail.com“Vou pegar os Chromebooks porque hoje eles não têm pátio, tá chovendo!”
Reflexões sobre a Sobrecarga Docente e o Desconhecimento das TDIC
Ao circular pelos corredores da escola, uma frase proferida casualmente por uma professora chamou minha atenção: “Vou pegar os Chromebooks porque hoje eles não têm pátio, tá chovendo!” Em poucas palavras, ela escancara questões profundas e urgentes do cotidiano escolar, especialmente no que diz respeito à sobrecarga do trabalho docente e ao desconhecimento do real potencial das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) como ferramentas pedagógicas.
Entre o improviso e a (sobre)carga diária.
No Brasil, a rotina de um professor é marcada por desafios constantes: turmas numerosas, recursos escassos, demandas burocráticas e a pressão por resultados cada vez mais imediatos. A frase mencionada sintetiza o improviso que atravessa o fazer docente. Em dias chuvosos, quando os alunos não têm recreio ao ar livre, o professor, já sobrecarregado, precisa encontrar soluções rápidas para manter o controle e o engajamento da turma. Surge então a tecnologia — ou pelo menos, sua possibilidade.
O improviso, porém, revela mais do que criatividade. Ele é, sobretudo, sintoma da falta de planejamento institucional e da ausência de formação adequada para lidar com as TDIC. Ao transformar o Chromebook em “salvação” para um imprevisto climático, arrisca-se esvaziar o potencial pedagógico do recurso tecnológico, reduzindo-o a mero entretenimento ou instrumento de contenção disciplinar.
TDIC: muito além de tapar buracos
A implementação de Chromebooks e outras tecnologias nas escolas públicas é, sem dúvida, uma conquista. Entretanto, ela não vem acompanhada, geralmente, de uma política sólida de formação continuada para os educadores. Persistem dúvidas básicas, inseguranças diante das plataformas, receio do desconhecido — e, por vezes, resistência.
Desconhecer as TDIC enquanto ferramenta é desperdiçar oportunidades valiosas de ressignificar o processo de ensino-aprendizagem, de promover autonomia, protagonismo e inovação em sala de aula. Utilizar laptop apenas em emergências, para acalmar turmas ou “ocupar tempo”, reforça a ideia de que a tecnologia é acessória, não essência.
Sobrecarga, desinformação e o papel das políticas públicas
É preciso ressaltar: a sobrecarga docente não se resolve com mais ferramentas, mas com formação, planejamento coletivo e políticas de valorização do profissional da educação. Esperar que o professor, sozinho, inove, aprenda e gerencie múltiplos recursos tecnológicos sem qualquer apoio é perpetuar o ciclo da precariedade.
Mais do que disponibilizar equipamentos, é fundamental investir em formação continuada, criando espaços de troca, experimentação e reflexão sobre as possibilidades reais das TDIC. Caso contrário, continuaremos ouvindo frases como a que inspirou este artigo, que simbolizam o uso fragmentado e pouco efetivo das tecnologias na escola.
Da chuva ao protagonismo
A chuva que “impediu o pátio” deveria ser oportunidade para explorar o potencial das TDIC em projetos integradores, colaborativos e criativos. O Chromebook não precisa (nem deve) ser somente plano B. É urgente superar o improviso, investir em formação e empoderar o professor para a tecnologia ser verdadeiramente aliada do aprendizado — e não apenas solução provisória para emergências climáticas.
É tempo de enxergar, para além da cortina de chuva, que a transformação digital na educação começa pelo diálogo entre infraestrutura, formação e valorização docente. Se não chover soluções estruturais, continuaremos apenas mudando de abrigo, sem nunca enfrentar a tempestade real.